Todo ponto de vista é apenas a vista de um determinado ponto.

terça-feira, 17 de março de 2009

A Arquitetura precisa de um Carl Sagan

Esperamos pela luz, mas contemplamos a escuridão.

Isaías 59:9




Carl Edward Sagan (1934 - 1996) foi um importante cientista e astrônomo dos Estados Unidos, estando envolvido em quase todos os momentos importantes da astronomia e da
exploração espacial, na segunda metade do século XX.

Tanto na teoria quanto na prática, obteve sucesso, sendo responsável por diversas missões, chefiando as lendárias Viking e a Mariner, dentre outras.

Academicamente, seu legado também é louvável: foi decisivo na explicação do efeito-estufa em Vênus e no descobrimento das altas temperaturas do planeta; na explicação das mudanças sazionais da atmosfera de Marte, e na descoberta de moléculas orgânicas em Titã, satélite de Saturno.

No entanto, Sagan nunca considerou essas descobertas e contribuições como seu maior legado.

Inerente a todas as descobertas feitas pela ciência moderna, Carl Sagan acreditava que todo esse trabalho científico só alcansaria algum sentido quando todos soubessem da existência dessas discussões. Para isso, martelou, por toda a sua vida, as questões referentes à divulgação da ciência e, principalmente, à importância da educação acessível a todos.

Carl Sagan foi um astrônomo de primeira linha, entretanto, divulgando a ciência a todos, destacou-se como o melhor dos melhores. Sagan não se rendeu a um só tipo de mídia ou de veículo: produziu documentários televisivos, ministrou palestras por todo o planeta e escreveu diversos livros científicos, além de ensaios e romances. Enfim, fez tudo o que estava ao seu alcance para que sua mensagem sobre ciência, ceticismo e educação alcançassem a todas as classes, faixas etárias, gêneros e etnias possíveis.


Após essa introdução, ouso afirmar algo com absoluta segurança:


A Arquitetura precisa de um Carl Sagan


Nossas cidades definham, nossas casas definham, nossa valorização profissional definha:

Urbanisticamente, nossas cidades estão à beira do caos;

90% das construções que estão acontecendo hoje no Brasil estão desprovidas de quaisquer aspectos de qualidade espacial ou social;

90% das pessoas envolvidas, tanto em construção quanto em política, desconhecem as reais funções, atribuições e vantagens de se contratar um arquiteto ou urbanista;


Se há solução para reverter esse quadro?
Não sei dizer, mas talvez Sagan saberia: Divulgação, conscientização e educação.

Indago-me e indago: por que ainda não existe um Architecture Channel?

por que só existem textos extremamente herméticos e academicistas de arquitetura, ou então verdadeiras porcarias escritas em revistas de decoração?

por que eu só fui saber quem era Lucio Costa ou Vilanova Artigas na faculdade, e não me ensinaram isso no ensino fundamental ou médio, e por que nunca me envergonhei disso?

por que, parafraseando Bruno Zevi, as pessoas se envergonham por não saberem quem é Van Gogh ou Marlon Brando, mas não dão a mínima por não conhecerem Palladio?

por que a Folha de São Paulo, que lança coleções de livros a cada trimestre sobre Artes, Culinárias, Filmes e Literatura, nunca lança um panorama sobre a arquitetura contemporânea mundial?

Educação, conscientização e divulgação.

Nós, arquitetos e amantes da arquitetura, poderíamos desviar um pouco o nosso fôlego de nossos debates e gastar um pouco mais essa energia contando o quanto isso é divertido e importante para os outros de fora.

Porque as pessoas só irão valorizar, pedir por coisas importantes quando souberem o quanto essas coisas são valiosas e importantes;

Esperar por um Carl Sagan arquiteto é ingenuidade, mas um exército de "mini-sagans" me soa algo como uma solução. Destilar todo o conceito de arquitetura contemporânea, e transformar esse conteúdo em informação rápida e bem humorada, para que leigos também participem; mostrar que nossos temas são tão interessantes quanto qualquer outra produção cultural humana, não acredito que seja impossível.



Na verdade é até uma vergonha que o livro sobre arquitetura mais acessível dessa década, que inclusive se expandiu para outras mídias como documentários televisionados e também para a própria internet pelo youtube, o Architecture of Happiness, tenha sido idealizado por um filósofo, e não por um arquiteto.


Produzir conhecimento sem divulgá-lo é como uma vitória sem vencedor. Se comecei esse post com uma citação, termino com outra, também extraída de um livro de Sagan:

"É melhor acender uma vela do que praguejar contra a escuridão"
ADÁGIO

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ps.: Esse post "Manifesto" é na verdade o prolongamento de um assunto iniciado no post anterior "Reforma Urbana em Paris", onde o professor PC Lourenço acendeu o pavio com um excelente comentário que transcrevo aqui:

Prezados Henrique e Thiago, É, ao mesmo tempo, fascinante e desanimador, ver como as questões referentes às cidades são tratadas com seriedade e importância nas cidades do chamado mundo desenvolvido. E olha que alguns de nós, ou todos, poderíamos dizer que estas cidades já são "perfeitas"!!! A distância que nos separa destas realidades é imensa, e pior, aumenta a cada dia. Seriam nossos "líderes" os responsáveis por este descaso? Ou seríamos nós os arquitetos e urbanistas? A culpa é da falta de cultura generalizada? Estas são perguntas que, ao meu ver, não possuem respostas imediatas. O fato é que temos que construir, sem trocadilhos, esta cultura e irradiá-la de alguma forma. Como? Não me pergunte, pois também não tenho a resposta, mas creio que fazemos, de alguma maneira, a nossa parte. Mas é muito pouco!!! Abs, PC.
____________________

Também não sabemos a resposta, professor, mas podemos pensar em voz alta e, quem sabe, começar um interessante debate!

9 comentários:

Ricardo Rossin disse...

Quem escreveu esse texto?? Foi algum de vocês? Isso mereceria estar em jornais e revistas amanha, na cara do vitruvius, em todo o blog de arquitetura que conheço...muito bom o texto...

Espero que eu possa me tornar um mini Sagan!!!

Henrique Gonçalves disse...

Obrigado pela força, Rossin!
O texto é meu sim, espero ñ ter falado nenhuma asneira! hehehe
abs!

Thiago Beck disse...

É isso aí, acho que a divulgação é nossa obrigação como a nova geração de arquitetos.

.CarLinHa disse...

concordo plenamente xD

Henrique Gonçalves disse...

Sem contar que vivemos hoje em uma era onde existe a internet.
Nunca gastamos um tostão com esse blog, apenas investimos nossa boa vontade e dedicamos parte do nosso tempo para nos dedicar ao blog.
Considero esse blog na verdade um exercício, tanto de escrita quanto de debate, sem contar que ele nos obriga a nos manter sempre atualizados.
Tenho certeza de que seria outro tipo de aluno muito inferior se há um ano atrás não tivesse criado esse blog.

mateussz disse...

Fantástico o texto. Concordo com o Rossin. Tem que ir pra uma revista ou um jornal. Vou esperar tu me autorizar dar um copy nesse texto!

mateussz disse...

O que acontece na arquitetura brasileira hoje? Já vi anúncios com projetos por R$ 1,99/m2; a grande maioria achar que arquitetura é o mesmo que decoração - ou seja - coisa fútil. O que colabora pra isso? Maus profissionais com ótimos contatos!!
Os blogs são bons por isso: A informação, o debate vem de maneira informal. A atualização é diária. À procura do Sagan! Fantástico.

Thiago Beck disse...

Com certeza o blog nos ajuda em vários aspectos, e conseguimos perceber claramente as contribuições que esta dedicação diária está frutificando. Claro que além da vontade do conhecer e se manter atualizado, o fato de termos leitores, casuais ou fiéis, nos impulsiona a tentar sempre melhorar. Por isso, agradeço a vocês leitores, por esse intercâmbio.

Henrique Gonçalves disse...

Mateus, fique à vontade para transcrever nossos textos em seu blog, será uma honra!
=)