Todo ponto de vista é apenas a vista de um determinado ponto.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

PA V - clique nas imagens para aumentar



pranchas:

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maquete:




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Memorial Descritivo
P.A.U. V
Professor: Alvaro Giannini

Aluno: Henrique Gonçalves


A IDÉIA

Durante o desenvolvimento deste projeto, tive o privilégio de, ao abrir minha janela, deparar-me com o espaço onde ele estaria inserido. Encravada na montanha, a encosta do Paineiras, com seu peculiar conjunto de edificações, faz parte do meu cotidiano, há mais de dezoito anos, quase a totalidade do meu tempo de vida, portanto não podia ignorá-la.

Seus edifícios sobrepostos ao longo da Olegário Maciel, todos com o mesmo gabarito, todos com o mesmo coeficiente, arquiteturas sem qualidade, se vistos de forma isolada, porém ricos quando unidos e dispostos da forma como estão, foram, paradoxalmente, o meu maior problema e a minha principal inspiração. Eu queria aquela densidade, mas também era meu desejo que eles continuassem sendo vistos pela cidade, mesmo após a inserção do meu projeto.

De um dilema nasceu meu projeto. Lembro-me de uma manhã de domingo, em abril, quando estava pesquisando sobre matérias transparentes e, enquanto buscava nomes banais para o meu edifício, como “Translucent Residence” ou “Clean Water Tower”, deparei-me, na Internet, com a notícia de que Jean Nouvel era o novo agraciado pelo prêmio Pritzker. Atraído pela notícia, revisitei, fotograficamente, suas obras e, ao encontrar a seda da Fundação Cartier, encontrei um caminho. Partindo desse edifício, fiz uma extensa pesquisa sobre as possibilidades de se relacionar pele dupla com intenções ideológica, não podendo deixar de citar o recente “The New York Building”, de Renzo Piano, para mim o ponto máximo nessa concepção.

A disposição do terreno proposto, as leis de gabarito e ocupação induziram-me a pensar numa solução mais urbana, não concentrando todas as promessas em um só objeto. A unidade estética do conjunto de edifícios deveria partir da mesma premissa da pele dupla, de se transformar um elemento funcional em beleza e princípio ideológico. Nesse sentido, toda a estética do conjunto ficaria a cargo de vigas, pilares expostos, boylers, caixa d’água, rampas de circulação, painéis fotovoltaicos, etc.

E a densidade transparente é enfim alcançada:com a pele dupla, transformo três edifícios isolados em um só conjunto, denso e sólido. Esta mesma pele dupla protegendo minhas edificações do sol e do voterismo vizinho (efeito mucharabi) dão maior possibilidade de abertura nos apartamentos, de forma que uma intenção complementa outra.

Com o coeficiente de ocupação baixo, que fazer com a área restante? Em um meio extremamente denso, carecendo de área verde, a solução não poderia ser outra: árvores e cerca transparente, de forma a tornar essa benfeitoria pública, ainda que apenas visualmente.

A imagética da obra torna-se, assim, forte: peles duplas, aquecedores solares e uma densa massa verde fortalecem a idéia da preocupação ambiental tão necessária em nossa época, sem dispensar, é claro, a boa arquitetura.


O ESPAÇO

Os 4500 m² destinados às habitações foram organizados em dezoito apartamentos de 250 m² cada um. Portanto, cada uma das três torres abrigará seis apartamentos, sendo um por andar.

Referindo-se, primeiramente, ao espaço geral, buscou-se adaptar o projeto tanto à topografia quanto à morfologia. Seguindo a lógica urbana do quarteirão, cada entrada , com sua proposta, abriu-se para a via mais propícia: a entrada de carros, pela rua Maurício Giron, que atualmente apresenta o menor índice de tráfego das ruas que circundam o terreno; a entrada principal de pedestres, pela Monsenhor Gustavo Freire, que tem a maior movimentação; e uma entrada secundária de pedestres, na rua Benedito Reis Fortes, próxima ao ponto de ônibus existente na via, completando, assim, o acesso ao conjunto.

Ao se implantarem as edificações no lote, a topografia, o sol e a disposição das vias ditou onde cada elemento assentar-se-ia. Os três edifícios ficariam dispostos com espaçamentos equivalentes entre si, na parte mais alta do terreno. A garagem, na parte mais baixa e, ao mesmo tempo, mais próxima da rua Maurício de Giron que, como já se afirmou, apresenta particularidades mais propícias para a entrada e saída de veículos. Os ambiente de uso comum, como cinema, salão de festas e fitness, concentraram-se no andar acima da garagem, fechando, estrategicamente, o domínio do terreno: ao mesmo tempo que, embaixo, criou-se um espaço rico e interessante, de pé direito quase duplo, essa elevação conectou-se com os halls dos edifícios, no plano acima, gerando um único espaço, contínuo e de convívio.

Esse plano contínuo conecta-se à área esportiva, na extremidade do terreno por questões de orientação solar. Entretanto, esses dois espaços, separados espacialmente, têm um mesmo apelo – servir como lazer aos moradores dos prédios. Partindo da necessidade de conectá-los de uma forma fica e “punctual”, criou-se uma rampa que, “serpenteando” um jardim interno, liga os dois pavimentos, à maneira Louis Kahn: com uma promenade surpreendente e interessante. Esse mesmo jardim interno, uma continuação visual do bosque, funciona como um átrio central para os ambientes de uso comum, que, ao apontar suas aberturas de ventilação, poupam os vizinhos de maiores ruídos.

O playground localiza-se em um espaço privilegiado: no interior do bosque, há privacidade e, ao mesmo tempo, incentivam-se as crianças ao contato com a natureza.

Subindo os apartamentos, temos uma interessante composição: ao concentrar sustentação e circulação vertical centralizando-se a área de pilares, de escadas e de elevador, consegue-se maior flexibilidade de uso, sem contar a circulação absoluta em que o social, o íntimo e o serviço conectam-se, embora independentemente.

Em virtude da proteção da pele dupla, aboliu-se, em diversos cômodos, o uso da janela convencional, optando-se, nesses espaços, pelo vidro, de cima a baixo, com fechamento total por persianas, as quais proporcionam total liberdade no nível de abertura ou fechamento ao usuário, no decorrer do dia ou da noite.


A MATÉRIA

Como a proposta está carregada de significado, a estrutura não poderia deixar de ter seu papel marcante. Remetendo à cultura brasileira do concreto armado, aqui suas possibilidades são levadas a uma conformação não muito usual, porém marcante.

Trabalhando com a já dita proposta de se eleger a própria estrutura como estética do conjunto, vigas e pilares tornam-se expostos, ampliando o espaço externo.

O grande protagonista dessa história é o pilar central de sustentação dos edifícios: pensado para ter duplo sentido – seja para marcar a malha urbana com um sistema construtivo diferenciado, seja otimizar o espaço interno dos apartamentos –, esse núcleo central de circulação e sustentação libera o térreo à maneira dos pilotis de Le Corbusier, porém dotado de uma audácia peculiar: no topo desse núcleo central, encontra-se um grande monólito branco, onde estão abrigadas a caixa d’água, a casa de máquinas dos elevadores, além de uma área de serviço prevista para a instalação de antenas, pára-raios e o sistema de captação de energia solar, usado tanto para aquecimento de água quanto para energia elétrica do condomínio.

Teoricamente, esses painéis captadores de energia solar serviriam também como cobertura para a laje. Embora não seja ainda uma tecnologia existente no Brasil, entretanto é de fácil desenvolvimento, já que basta criar um sistema de vedamento e aplicá-lo nos painéis já existentes.

O pavimento de uso comum tem fechamento em vidro duplo na fachada voltada para a via. Esse fechamento, ao contrário do que se pensa, antes de coibir o ruído externo, tem a funcionalidade de coibir o ruído interno, evitando, assim, prejudicar os vizinhos.

A ventilação desses espaços fica a cargo de aberturas voltadas para o jardim interno da rampa. Também não há a possibilidade de esse som chegar às residências, devido ao fato de elas se locarem, no mínimo, dois andares acima do jardim.

Um comentário:

Cynthia Yong disse...

wow, amazing good work, Henrique.:) thumbs up for you!!!