Todo ponto de vista é apenas a vista de um determinado ponto.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Brave New Spacial World (II)


CENA 3

Sala de Aula da Arquitetura - semestre 2 de 2037

PROFESSOR

Continuando nossa aula sobre a produção arquitetônica das duas primeiras décadas desse século, prosseguiremos na análise da obra pessoal de alguns arquitetos de maior relevância. Na aula de hoje, discutiremos a obra dos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron. Como todos sabem, em um passado não muito distante, esses senhores octagenários compuseram uma brilhante dupla que...

SEBASTIAN

-cochichando com Sig-


Conta uma novidade, né...

PROFESSOR


Muitos da sala podem não saber de uma informação dessas, Sebastian.

SIG

Se esse alguém não sabe uma coisa dessas, ele tinha que ter, ao menos, a compostura de se dar um tiro na cabeça para que seus genes da burrice não passem para a próxima geração.

Risos na turma


PROFESSOR

Cochichar na altura em que vocês cochicham, a meu ver, também não é uma atitude muito inteligente.

Risos na turma.

PROFESSOR

Prosseguindo nossa análise, para uma melhor compreensão da obra dessa dupla, catalogaremos em duas partes distintas: a produção pré e pós Teatro da Ópera em São Paulo, Brasil. Essa divisão é importante porque foi no desenvolvimento desse projeto que os dois arquitetos começaram a se desentender.

May, uma das alunos, levanta a mão, no que é consentida por um aceno de cabeça do professor

MAY

Professor, sinto que essa sua necessidade de relacionar a vida pessoal com a produção profissional do arquiteto um tanto vulgar e incômoda. Gostaria de entender melhor o porquê dessa atitude.

PROFESSOR

Cara aluna, analisar a biografia do arquiteto é primordial. Primeiro, para entender o indivíduo, segundo para entender o meio e o tempo em que ele vive. Não, não sou determinista, mas acredito que são fatores relevantes em uma produção. Não dá para entender a produção de Michelangelo sem analisar sua relação com o Papa Julio II, ou a de Mies Van de Rohe com a srta. Farnsworth.

MAY

Mas esses são casos isolados.

PROFESSOR

Sim, são casos clássicos e exemplares, mas essa prática se aplica a qualquer produção humana: Paulo Mendes da Rocha e a ditadura militar brasileira, Louis Khan e suas inúmeras famílias, Frank Gehry e seu complexo por ser judeu no início de carreira e, enfim, a discórdia entre Herzog & de Meuron.

MAY


Mas...

PROFESSOR

Certo dia como qualquer outro, Jacques Herzog sai de sua casa um pouco alto devido ao abuso de álcool em uma festa familiar. Um estudante que estava passando faz umas perguntas para o sr. Herzog e grava a improvisada entrevista com um celular (todos aqui lembram o que é celular, não é?). Na entrevista, o sr. Herzog afirma categoricamente o quanto seu sócio é inútil e esforçado, e horas depois o vídeo vira hit no youtube.

SEBASTIAN

O que seria o youtube?

PROFESSOR

Quando eu era novo, ainda peguei essa porcaria. É um armazenador digital de vídeos, muito do rudimentar. Vocês não iriam gostar. Ainda usávamos internet! hehe

SEBASTIAN

Como um SDN-inc de vídeos?

PROFESSOR

Sim, mais ou menos isso. Sem, é claro, as toneladas de hologramas pornográficos ultrarrealistas.
Mas, continuando. Após o incidente com o youtube, a dupla se desintegra em poucos meses, a obra desanda. De Meuron prefere se manter em silêncio enquanto Herzog faz seguidos pedidos públicos de desculpas. A produção posterior dos dois sofre uma visível modificação: enquanto de Meuron prossegue numa linha muito semelhante, em criatividade e capacidade, ao que sempre fez, Herzog descamba em um trabalho fraco e desacreditado. A impressão que fica é a de que Herzog nunca conseguiu se recuperar de sua culpa, o que afetou e afeta profundamente o seu trabalho.

SIG

Interessante...

MAY

Mas essa é sua teoria! Isso é só uma suposição sua! Aliás, duas suposições suas: primeiro, a do trabalho ter caido de qualidade devido à melancolia do arrependimento; e segundo, a própria análise crítica do trabalho. É você que está dizendo que a obra posterior de Herzog é medíocre, e isso é pura subjetividade sua.

PROFESSOR

Sim

MAY

Portanto, uma análise biográfica só complica as coisas, dando mais asas à imaginação de teóricos como você, que imaginam tanto a causa quanto a consequência, nos distanciando da verdade. Assim, decido por descartar seu método.

PROFESSOR

Srta. May, vou te fazer uma pergunta e me responda com muito carinho.

Professor pensa por alguns segundos

De toda a produção humana, partindo da filosofia para a matemática, para a física, química, psicologia, história, geografia, medicina, retórica, enfim... TODA a produção humana até hoje, paupável ou não, escrita, cifrada, imaginada ou simplesmente tocada, pegando também toda essa minha aula e, inclusive, seu infame comentário sobre ela, que também pode ser considerado produção humana....

Professor pensa por alguns segundos

Me diga se dentro disso há algo que não seja subjetividade, se há algo que não é simplesmente uma opinião?

MAY

Silêncio

PROFESSOR

E então...

MAY

O Sig estava certo...

PROFESSOR

Sobre o quê?

MAY

Você é mesmo um cagão... apesar de isso ser só uma subjetividade minha e do Sig.

5 comentários:

Lucas Gonçalves disse...

Muito interessante essa historinha, to me amarrando, mas da onde veio ela? oO'

Henrique Gonçalves disse...

Hahahaha, o capítulo de hoje surgiu na minha cabeça enquanto eu almoçava!
haeheahaeheah
Vamos ver como vai ser o próximo; acho q vai ser uma cena na sala dos professores, onde o professor desabafa que está cansado de ser chamado de cagão!
vamos ver...

Ricardo Rossin disse...

hahaah...Eu estou adorando...Por falar nisso, meu blog foi "subjetivo" no ultimo post...rs...

Lucas disse...

caraca bixu vc é mó viaje mesmo hen
uhauihauihihua
iraado!

Henrique Gonçalves disse...

Opa,valew!
Estou com umas idéias mais loucas ainda pros próximos, aguardem e verão!
heahaehaeh